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Hoje sim fumei de mais

ao meu pai

ao meu pai

Hoje sim fumei de mais

27
Out21

Não haja dúvida

Frederico

Estou assim a modos que. Acontece que uns alunos de NTC de Aveiro convidaram-me para uma curta. Aquilo era deveras divertido. Tratava-se de gravar uma simples conversa de café entre amigos. Porém, os meus colegas gravaram as nossas vozes à parte. Estão a imaginar o estapafúrdio: a conversa entre amigos era intercalada de vozes de escárnio e mal-dizer que se sobrepunham nos lábios dos intervenientes. Lembro-me que a voz com sotaque do João sobrepunha fielmente os meus lábios. Às tantas o Milk trocou a papelada do enredo (ainda que as frases, avulsas, não se destacassem por nenhuma observação em particular.) «Não haja dúvida», dizia uma voz de sacripanta assimilada no SoundForge por cima dos lábios do João. Mais tarde ninguém entre nós compareceu à estreia no ecrã do auditório; eu e um amigo apenas fomos espreitar pela porta entreaberta para ver como seria a reacção: pelos vistos, na plateia riam-se – ainda por cima porque eu era o mais bonito do grupo e porque afinal a voz de João sobrepunha-se aos meus lábios fofos. Foi divertido; no entanto, não sei o paradeiro desse vídeo, pelo que estou assim a modos que.

27
Out21

Os Conversadores

Frederico

Olá, piolhinhos. Bom-dia. Hoje estou bem dispostinho; dormi bastante e achonchegado, e como tal vou contar uma história não muito bonita - só mesmo para contrabalançar. 

Esta é uma história verídica sobre uma peripécia que teve evento no meu antigo apartamento, uma história de arrepiar cabelo, senão mais terrífico. Nessa fase da minha vida eu andava à procura de vencer uma insónia que me assolou a vida durante praticamente um ano. Digamos que foi numa fase mais difícil. Simplesmente não era capaz de dormir àquela hora precisa da noite. Porque eu gosto de dormir - e quando quero dormir, é impreterível para mim que seja antes da meia noite. Portanto, não quer dizer que fora um problema maior. É certo que muitas das vezes só achava cama por volta das 6 horas da manhã. Foi numa dessas noites que decidi fumar um cigarro. Lembro-me que lutava dentro de mim por achar sono. Neste somenos, denoto, não sem uma crispada surpresa, três baratas em amena cavaqueira. Não, não é possível. Ali estavam elas num círculo entre si, numa conversa muito consentânea. Pareciam três estrategas. As tantas reparei que elas estiravam as pequenas patas numa interjeição. O que aconteceu seguidamente não é da minha natureza, até porque eu amo todos os animais sem excepção: acabei com aquela assombro com o chinelo, que arrebatei do lixo. Sim, sei que parece horroroso e emporcalhado, mas pus um fim àquilo. Esta é a história d' Os Conversadores.

PS: Quando miúdo também me achei diante de uma barata na gaveta dos talheres. Confuso, quase mergulhei o conteúdo dessa gaveta com insecticida. Por acaso a minha mãe viu. Bradou: Não faças isso!

26
Out21

Sopa

Frederico

Tanta vez decidi sair de casa pela janela do rés do chão da cozinha. Era impreterível manter a calma para descer pé ante pé. De referir que a queda de quatro metros até lá em baixo daria para partir desde logo os fracos bracinhos. Ao cabo desta faxina, que nessa idade nada tem de tenebroso, deixei-me cair na relva. Todavia, num desses dias de sol pela manhã, e neste somenos, ouvi uma senhora no sétimo andar do prédio em frente: «Oh, menino! Venha emborcar uma sopa! - Esta mulher, pensei para mim, já me convidou para emborcar sopa éne vezes. Vai pensar que vou ser ladrão - isto, porque consta que, quem desce pela janela, na idade adulta será ladrão. Bruxas, muito provavelmente. Decidi pois sair de fininho, estando a senhora na janela à espera que eu desse o sinal. Nada. Pelos vistos, houve quem me traísse; a mãe minha mãe já estava ao corrente. Quem senão a velha do sétimo andar? «Chamei pelo seu filho e ele, nada. Foi como se me ignorasse.»
Quando enfim cheguei em casa, a porta já estava destrancada. Nesse dia, teria perdido a chave. Ainda houvera tempo para ir ao recreio sob o sol tórrido, «Hey, outra vez a descer pela janela de cozinha? Que significa esta nova circunstância? Ouve, tu tiraste dinheiro da minha carteira?

26
Out21

Desabafo

Frederico

Há um lugar que eu recordo não sem desassossego. Trata-se de um caminho ao largo do prédio onde vivi. É uma espécie de caminho rumoroso com uma fonte em pedra escavacada no solo. Para chegar até lá, era necessário descer umas escadas íngremes através de um muro alto que ladeava aquela parte do bairro. Ali, apenas vegetação desabrida ao longo desta pequena paisagem com a linha férrea em baixo. Na verdade, eu passava ali para ir para a escola. Lugar estranho e algo estúpido. É só.

Pior só mesmo as Alminhas. Ali para os lados do Lugar das Alminhas deve ser uma corrente de ar... - eu nem quero imaginar. É um lugar ermo e misterioso onde a raia miúda vai colocar os sírios num nicho. Tudo muito bonito quando uma pessoa passa lá pela hora vespertina, mas à noite não ponho lá os meus pés. É um breu como no alto mar. Sempre pensei que no Lugar das Alminhas está consumido por almas penadas - que aquilo está assombrado. E no entanto é só um caminho empedrado com casas arruinadas à face da estrada. O Lugar das Alminhas, em declive, é uma ampla encruzilhada onde as estradas se cruzam. É possível ouvir as máquinas na Estação atracar. É claro que isto nada tem de humorístico, mas deixo a minha esperança na senhora das Candeias.

25
Out21

A Estrela da Manhã

Frederico

O caixão ostensivo, acompanhado por uma multidão, sai nesse momento pelas portas da igreja; quatro valentes homens ostentam esse caixão; e cai sobre ele os primeiros cardos. Um mar de gente brame um lenço; acorre para participar, solene, gloríola. Todos sem excepção comungam da atmosfera. Às tantas é ver mais e mais cardos cair sobre o meu caixão. Fui eu quem pediu cardos. A minha família, os meus amigos, os meus melhores amigos, num carpir desarmado. Mais cardos; tantos que a população arranca com eles em braços, e muitos outros acorrem para lançar com eles. É cardos a perder de vista como numa película. Crianças lançam por entre a multidão para ver de perto. E quantos mais cardos, mais falange. Até que tangem os sinos; e assomam outros veraneantes descendo pela estrada do sopé em trote. O meu caixão vai sobre a multidão, ostensivo, com homens triunfantes na investida para o cemitério. Os quatro homens valente que ostentam o meu caixão mais não são que quatro valentes amigos. No rosto, a galhardia. Dá gosto ver estes homens: o caixão nem pia. E vou para sob a terra, e da terra vou para o espaço sideral; do espaço sideral, finto e vou para o éter como nadador inveterado. Torno-me energia. Uma estrela, quiça. A estrela da manhã. 

25
Out21

Pão de Deus

Frederico

Existe um lugar que remonta à memoria de infância que retrata muito bem esse período da minha vida. Domingo de Páscoa tórrido, daqueles domingos bem quentes que estalam na psique. Estávamos em Viana do Castelo diante de uma mesa com convidados, entre os quais homens e mulheres que eu não fazia ideia quem eram, senão familiares de alguém que tem por afinidade à minha avó materna. Lembro-me que essa sala estava algo iluminada devido à luz que passava através das janelas, se bem que airosa e confortável e longe, muito mais longe, da canícula. Ali cirandam crianças e pequenas mulheres do campo com rosto macerado. Pormenor algo curioso é o jardim que pulula de flores mesmo abaixo dessa sala, bastando descer um lanço de escadas, para logo tudo se cobrir de um aroma intenso debaixo daquele mesmo sol. Às tantas eu descia para aquela fortaleza de jardim para evitar aquelas pessoas desconhecidas em redor da mesa dos acepipes. 

A casa em si era uma espécie de construção em baluarte. O jardim apenas um prolongamento. E aquela sala, apenas mais um compartimento feito a partir de alumínio barato onde as pessoas podia queimar o tempo. Lembro-me que, já naquela idade, eu pensava para mim o quanto era peregrina a ideia de nos juntar àquelas pessoas; o quão para mim era já um tormento e especial embaraço permanecer ali. Pois eu não desejava estar ali. Pensar que toda uma espécie de gente mariana se comprazia diante de uma mesa com acepipes, isso estava eu longe de aceitar.

25
Out21

As passas do Algarve

Frederico

Neste momento estou no escuro do meu quarto hermético. São 3h e meia da tarde. Estou que nem posso: pior que a noite. Estive todo este tempo a fumar diante do PC, debitando no Twitter. Não larguei o cigarro em toda a manhã. Agora estou em suplício. Momentos há que levo as mãos à cabeleira, tal é a sensação malsã. 

Entretanto, fui pagar umas contas de casa; pelo caminho, o sol de inverno, de um amarelo fosco, bate-me na psique como no interior de um forno. Todo o meu organismo entra em alvoroço. Vou pé ante pé, amargurado. E no entanto acordei bastante bem; rejuvenescido, depois de um Domingo aberrante.

Fui ao Continente logo pela manhã - pelo menos para espairecer e sair do estado hipocôndrico - e voltei no ónibus, diga-se. Nada teve evento. Não entrei em pânico; estava bem comigo próprio. Porém, o embotamento da alma voltou. Senti-me pior que estragado. É do tabaco à desfilada. Sentia-me bem disposto, comunicativo. Entabulei conversa com uma vizinha; disse uma graçola ao senhor do café. Enfim, fiz um entrechat. Mas não. Torna-me a crise do embotamento. 

Há uma semana saí do Hospital após aquela noite angustiante. Fiz a toma como prescrita. Todavia, senti os nervos desanranjados nos dias posteriores. Não consegui abstrair-me de todas essas sensações, como se os sintomas persistissem. Mas não, trata-se da minha velha ansiedade. Essa mesma velha ansiedade que se abate todos os dias. Esse porvir. O medo de morrer. Às tantas, a hipertensão de tanto fumar. O café. Daí a nada estou a tactear as paredes. Daí a nada tenho medo de cair desamparado. Se quero deixar de fumar - pelo menos cinco minutos -, daí a nada acho um cigarro entre os dedos.  

Daí a nada estou supliciado. Enterrado no lodo. Morro eu; morre a ansiedade e o martírio. Morrem os amigos. Morre o mundo em meu redor. E depois? Depois não há tabaco.

 

 

24
Out21

Okapi

Frederico

Às tantas estávamos na sala da senhoria - sempre no cuidado para ela não entrar de supetão - quando o meu amigo se apressou a tirar um papel com um texto imprimido para entregar a um professor. André estava como que entregue aos bichos, juntando as mãos atrás das costas. O texto mais ou menos resumido rezava a sua insatisfação para com a matéria leccionada. Mesmo eu, depois de escutar aquelas palavras frugrais, não deixava de pensar no meu próprio futuro em Aveiro. Era um curso logisticamente pobre - senão para desenhar pinhas e búzio todo o ano lectivo - sem conteúdo programático às novas tecnologias. Movimentos Artísticos Contemporâneos, sim. Quando era hora de aulinha, estava eu pronto para ouvir o professor. Mas posto isto, e já que os meus amigos esperavam algo de mim para os receber, estirei uma folha do caderno onde eu próprio escrevi uma novena.

Bom dia pessoas que adoram os abraços. Ó meu deus, os abraços! Os abraços fraternos entre os amigos da velha cepa; abraços mesmo onde a comicidade. Enfim, abraços. Mesmo aquele abraço prenhe de amor nos braços descarnados da velha mãe, que no fim tem o sentido claro de unção; um abraço que vem do ar misticamente para resolver um velho mal-entendido. Um qualquer abraço basta para nos sentirmos achados.

- Adoramos.
- Escrevi umas destas noites. E lá para fim qualquer coisa sobre abraços. Não falta o poema sobre uma noite de amor fogoso com uma mulher cujo título é «Portas a Bater, Não». - Com isto os meus amigos não coibiram - Mas não vou ler, por favor.

O sol desceu para dar lugar à noite de regressos e embarques através das luzes dos comboios que projectavam ao largo. Estávamos diante do velho gira-discos, tentando queimar tempo a ouvir as bandas que tanto gostávamos. Eles entretanto abalaram. Neste somenos, senti um cheiro a queimado. Acontece que poupara um tempo antes de sair para engomar uma t-shirt. Era apenas uma t-shirt que convinha ser passada a ferro. Bem, o ferro de engomar estava a queimar o tecido do sofá. Resumindo, o sofá foi mandado arranjar no dia seguinte num estofador. E para completo assombro da senhoria, não havia sofá. Nada. Rigorosamente nada. Apenas o televisor e uma estante. Com o susto, soltou um grito de dor. 

24
Out21

Profissão? Filho.

Frederico

Quando estive no Hospital, deparei-me com um jovem algo atordoado. Via-se nos olhos. Um jovem bem apessoado, com penugem na barba e rigor no vestuário. Apesar de ausente - ele estava preocupado com a saúde -, o pai tentava a muito custo convencê-lo que tudo iria ficar bem, sem nunca censurar o facto de ser hipocondríaco.

Eu estou assim. 

Desde que saí do Hospital, sinto que não recuperei da gastroenterite. Agora não sei se devo voltar ao Hospital ou não. Acho que o Cerelac está a fazer das suas. Ou não... Talvez seja uma cisma. Sinto um prurido no abdómen que parece que não dissipar. Se for cisma, não vou ao Hospital. 

Também pode acontecer que o meu cérebro esteja a brincar comigo, logo eu, propenso à ansiedade e aos ataques de pânico. Mas também é como a minha mãe diz: «Tu estás cansado porque de manhã perdes todo o teu tempo a fumar tabaco em barda. Ou isso ou a tomar café. Depois não tens energia.»  Eu até meti a cabeça debaixo da almofada.

- Tens razão. 

Ehehe, a nossa relação é da mais salutar. Perco-me quando começa a desfiar as suas histórias, qual Vovó Viral. 

Quantas vezes conta a história do incubus. Estou na sala a ver um suspense, quando ouço um brado abafado: «Frederico». Pelos vistos o stand-by da televisão parecia-lhe um olho. No outro dia contou-me sobre o incubus:

«No sonho estava à janela a ver o panorama. Neste somenos, deparo-me com um homem munido de guarda-chuva; às tantas, uma multidão de homens munidos de guarda-chuva. O primeiro homem saltou para o corrimão e empurrou-me para cima da cama. Foi então que eu vi o olho da televisão»

Ou quando diz com algum puritanismo que o dentista é preto. «Faz-me todo o tipo de questões.» 
- Mãe, é o trabalho dele.

Ou como criei uma página do Windows Live Space só para ela. Mas isso teria de narrar noutro dia. É que ela sempre teve imenso jeito para desenhar. São desenhos extremamente graciosos. Figuras aladas, fadas e anjos; princesas e rainhas; navegadores e piratas; faraós, deusas para todas as idealizações. O mais surpreendente é que alguns pormenores são extremamente exactos e realistas. Adoro. De quando vez vou espreitar; está absorvida no pontilhar da figura. A madrugar.

24
Out21

Wells

Frederico

Acontece que a transmissão radiofónica de Guerra dos Mundos sempre me apaixonou. Estou a imaginar tudo em pânico após a simulação de uma invasão extraterreste. 
Este Guerra dos Mundos também teve evento em Braga há muitos anos. Mais recentemente, estando com os meus avós, nesta mesma casa, alguém mencionou algo sobre a Guerra dos Mundos. «Ehehe - disse eu -, o momento em que as pessoas entraram em pânico após a transmissão de uma invasão de marcianos. O mesmo se passou em Braga há uns anos...»
- Sim, Frederico - repondeu o meu tio, corroborando -, foi assustador. 
Assustador, pensei - sem imaginar o que iria ele dizer. 
- Os teus avós estavam melindrados. Aliás, como todos nós. Pensamos em fugir de casa. - O meu rosto brilhou, compreendendo. Não pude conter. Ri sobremaneira. 
Desde então, sempre que lembro dos sarcásticos marcianos em HG Wells, recordo os meus avós a preparar as trouxas, em pânico, arrastando-se uns ao outros para fora de casa em tropel.

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