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Hoje sim fumei de mais

ao meu pai

ao meu pai

Hoje sim fumei de mais

12
Nov21

Já havia esquecido este poema. Descansa em Paz, meu pai.

Frederico
Dedicado ao meu pai.
 
Descansa em Paz.
 
Acredita, pai. Eu morro na esteira...
Estando aqui sob este cobertor,
Onde bate senão o estertor
Da vida do sarilho da coleira...
 
Tu que por tantas ruas e travessas
Desvalorizas tanto o meu anseio...
Que copiosamente me levaste à certa,
- Ouve desde já estes versos às avessas.
 
Porque não existe maior mau entendido.
Ficou tudo deixado às claras, sem freio.
E nem por um segundo crês como eu creio
Como é doloroso estar comprometido.
 
Porque o que eu sinto de anseio sobra em dor.
Dor física, se me permites o amplexo...
A Dor de não ter amado, esse complexo.
A Dor, enfim que me ataca de perplexo.
 
É então que, por mais incerto que seja,
Aviva-me a sensação da Morte,
Da monta que há-de vir em sorte.
Esse momento único de peleja.
 
Estou certo que esta existência
Me irá levar de supetão
- Regra que não tem senão
Aos meus nervos e a ciência.
Hora da Morte.
 
Lembra o gato das horas tristes
Que em meu regaço se finou.
Trouxe alegria e recato,
No derradeiro fim suspirou.
 
Mas é apenas uma suposição...
Quero agarrar os colarinhos da vida,
Quem sabe ser um estroina
E ganhar o céu à exaustão.
 
Cair no leito de muita faxina,
Dormir e respirar num sono lúcido...
Permanecer na vida como em sonho
De um sonho lindo que me fascina.
 
Porque a Dor é profunda e requer confidência.
E nesta insistência eu quero dobrar o cabo...
Não seja para viver esse sonho lindo acabado.
 
Braga, 12 de Novembro de 2020
 
May be an image of one or more people and outerwear
09
Nov21

There's Augusto In My House

Frederico

Bendita seja a hora... Esta manhã não exagerei no Cigarro. Ontem por esta hora já havia fumado um maço inteiro. É por isso que não me acho bem. Queria ser o menino bonito como quando entrei na faculdade. Sem vícios ou merdas. O Bom e o Bonito. 

Todavia, não vou referir os meus vícios neste meu post. 

Uma altura, estando em casa do Bruno Miguel, este começou a descer da sua sapiência. «Sabes - principiou -, o meu vizinho cata as pulgas para as trinchar com os dentes.» Eu estava mais parvo que o habitual. Estava a procurar compreender por que alguém faz semelhante gesto. «Juro! - continuou ele acossado devido ao riso - Ele tacteia as pulgas do sofá e morde-as.» Interessante, pensei para mim. Este gajo está a dar-me um baile do caralho. Pois bem, tratava-se do mesmo Bruno Miguel, estudante em Aveiro. O mesmo que terá interpretado mal quando lhe indiquei um pacote de leite achocolatado da máquina.
- Se quero lavar no pacote?

Entretanto, num desses dias, Bruno Miguel arrastou o televisor da cozinha. Quis que eu visse Vicky Cristina Barcelona no escuro do quarto. «Mas primeiro deixa-me que te diga uma coisa. Há um homem que ocupa o meu sótão. Juro, homem. É uma alma penada.»

- É o Augusto - disse eu. O Augusto do restaurante. Gosto é dos pregos. Amarfanha na boca tipo esponja. Que delícia...
Vira-se ele para mim, tirando partido de uma brincadeira: «Tu põe-te à vontade!»

- Amarfanha na boca tipo esponja?

09
Nov21

O senhor introduz um bolinho no interior da boca

Frederico

Estes são os primeiros versos que me ocorreu publicar num blogue.

O senhor estava diante do pequeno snack-bar junto dos netos. Baixo como uma alface, o seu olhar parava ao ver as crianças passar, executando o galupim habitual. Era o habitual pasquim para este seu avô. Às tantas, ou porque aconteceu passar diante do snack bar, pediu um bolo. «Traz-me um bolinho», disse à proprietária e sua filha. O senhor introduziu o bolinho no interior da boca. Introduziu o bolinho no interior da boca, isto para gáudio indiferenciado das crianças....

 

07
Nov21

Ivã

Frederico

Foi giro esta ideia do Sapo comemorar o 18.º Aniversário do Blogs. Achei deveras engraçado e nostálgico. Há 18 anos não estava ainda virado para os blogues, mas lembro-me do site da TMN com um campo a preencher para enviar mensagens SMS's. Adorei essa fase. Era muito habitual a malta encontrar-me nos computadores da Biblioteca da Universidade de Aveiro a digitalizar livros inteiros sobre Arte num cantinho refundido. Bons velhos tempos. 

Só mais tarde é que decidi criar um blogue no Blogger. Tratava-se de Guerra e Morte, o saudoso Guerra e Morte. O blogue das horas tristes. Estávamos em 2006, muito provavelmente

Aquando deste meu primeiro blogue, o meu amigo sugeriu que acompanhasse o vídeo do Warhol com uma descrição meramente casuística. Posto isto, rematei com um famoso dizer - que despoletou em várias reacções na caixa de comentário -, no qual abreviei que Ivan o Terrível não fora apenas assassino como um grande apreciador de Ketchup. Os comentários irromperam com galhardia. Inclusive Fraulein Else. «Hoje a guerra não é propriamente devido ao teu trecho do Ivan; vê como esses temerários querem impôr respeito, já que são indignos de ti?» Resposta do meu ex-namorado: «Vamos dançar?». Eu estava agradecido; e atirava com «beijos para o ar». A resenha tivera êxito; mas havia quem não se contivesse, recalcando sobre o que eu acabara de escrever: «Paneleiro! «Juro - respondeu Fraulein -, estes gajos não têm o baralho todo!»

Pior foi mais tarde, quando decidi criar Corcel em Fogo para as minhas próprias resenhas. Ou quando decidi mover-me no MySpace. A partir daí foi um descalabro. Resulta que o perfil do MySpace era editável... Eu já não via coisíssima nenhuma. 

 

 

07
Nov21

Maduro

Frederico

Lá fora, um calor tórrido grassava junto à janela térrea do seu quarto. O senhor Maduro agoniava; os seus olhos não achavam paz naquele quarto fresco e sombrio. Nisto, alguém disse: «É o senhor Mercedes.» O senhor Mercedes aproximou-se.

- Hey - disse numa voz acalorada e fraterna.
- Hoje, não. Não queria nada - e desata num carpir.
As mulheres olhavam entre si. Que espécie de amizade tão fraternal é esta que faz um homem chorar diante do outro?
- Não te preocupes - disse o senhor Mercedes - respira um pouco deste frasco. Verás que te sentirás melhor? Comprei em Paris. É uma réplica do Marcelo dos Campos.
- Que é? - perguntou o senhor Maduro. - Um purgante?
- São os ares de lá.
O senhor Maduro inspirou fortemente.
- Calma - disse o senhor Mercedes repelindo o frasco. - Sê gentil, Maduro.
As mulheres suspiraram de incredulidade.
O senhor Maduro inspirou levemente o ar parisiense.
- Estás melhor?
- Sim, de facto.
- Perdeste a cor cinzenta.
- Aproxima essa cadeira. Vamos conversar.
- Que pensas fazer?
- Vou agora mesmo tratar do jardim.
A senhora rubicunda junto do senhor Maduro suspirou. Pensou: «Está na hora, com certeza. É Deus assim que determina.»
- Afasta-te um pouco, amigo. Quero ir ao jardim. Não quero partir sem ter o meu jardim em condições.
- Tens a certeza? Não estarás um pouco debilitado de mais?
- Toma-me as bengalas. Vamos lá.
O senhor Maduro abriu a porta para o Jardim.
- Comecemos - deitando a mão à cabeleira e ajustando o panamá na cabeça.
- Mas... meu querido amigo. Vamos precisar de homens e ferramentas. 
- Que seja. Vamos terminar esta tarefa até ao dia da minha morte. Se Deus permite que esteja aqui diante de vós, nesse caso: mãos à obra. 
- Deixa só inspirar um pouco mais desse ar de Paris, Mercedes. 
Ao cabo de uma faxina de 40 dias, o jardim estava florido com toda o tropicalismo possível. As velhas, entre as quais a rubicunda, estavam estupefactas. Também elas queria sorver do ar de Paris. 
- Desancar. O Mercedes não tem a vossa vida. Ide para casa descansar. Tragam os vossos homens para terminar o projecto. Este jardim será deles e de todos os que contribuírem. Digam ao Saldanha que já pode trazer os bancos longos de madeira.
- Você é uma praga, ora. Estava na hora da morte e no entanto nós é que pagamos pela desfaçatez.
- Vais levar na cara - disse o senhor Maduro mais inconsolável que o normal. - Mercedes, dá-me do ar de Paris para dar a bofetada nesta velha.
04
Nov21

O Homem Mudo

Frederico

O senhor Marcelo dos Campos estava a passear na rua do Souto. Tinha um assunto premente para resolver, pois que entrou na casa Machado e assim se dirigiu ao proprietário: «Boa tarde. Desejaria adquirir uma bengala de castão em forma de cão de água.»

- Claro, excelentíssimo senhor. Aqui tem - estendendo um exemplar no balcão de serventia. - Não é definitivamente do seu agrado?
- Definitivamente.
Após haver procedido ao pagamento, no qual havia desembolsado notas frescas acabadas de sair da máquina, o senhor Marcelo abandonou a loja e principiou o seu passeio. Porém, algo de muito inusitado aconteceu. O senhor Marcelo amparou a bengala num dejecto de porcaria. Isto só por si não é nada de muito invulgar - se a bengala despegasse no detrito. «Que significa esta circunstância? Que pau de três bicos?» Ali estava um senhor Marcelo dos Campos austero a tentar desenvencilhar a sua bengala de castão em forma de cão de água para nada. Pelos vistos um pobrezinho tentou introduzir no detrito uma espátula, mas foi logo enxutado por um cada vez mais possesso senhor Marcelo.
Todavia, o proprietário da casa Machado, ao ver os desenhos do autoproclamado Homem Mudo nas paredes diante da sua loja, acorreu ao senhor Marcelo. Não sabemos por que artes mágicas aquele fenómeno estava associado ao Homem Mudo. O certo é que o senhor Marcelo comprou uma lata de tinta e rolo de parede para nesse instante apagar as mensagens do Homem Mudo, figura proeminente das artes de rua da vetusta cidade de Braga. E como se não constassem mensagem subliminares na parede, o senhor Marcelo dos Campos desata num trote desenfreado para alcançar o estafermo. «Julga provavelmente que vou cair nas graças dele.» Ali apenas ficou a bengala grudada no chão...
 

Reporter Beta

 

02
Nov21

Outro Pensamento

Frederico

Tenho estado atolado de pensamentos contraditórios. Há uns dias a esta parte tenho pensado na minha ex-namorada. Eu até lhe dediquei uns versos no Twitter na esperança que ela os vá ler. Tão pouco sei o paradeiro dela. Provavelmente estou tão doente que nem me apercebo da merda que às vezes me ocorre. Espero no entanto que ela esteja ao corrente. Estou um pouco perdido neste vasto mundo, só desejo que ela volte o mais breve possível. Ou isso ou estou a sonhar alto, ou o meu cérebro está em água.

PS: Pode ler este artigo no meu perfil do Patreon aqui.

01
Nov21

Comédia num tempo

Frederico

É com saudade que recordo a Universidade de Aveiro e os meus amigos de então. Regozijo, mesmo. Pior que hoje seja noite. Sentimentalismo à parte: diverti-me. Para ser completamente verdadeiro: eu estava no curso errado. Só continuei porque estava apaixonado pela cidade e os meus colegas. E porque afinal Movimentos Artísticos Contemporâneos me preenchia. Tratava-se de uma Disciplina sobre o Modernismo. Às tantas havia alguém que insinuava qualquer coisa sobre a Sagração da Primavera. 

Eu adorava é a cidade. Muito mais sóbria e asséptica que Braga em todos os aspectos. Eu palmilhei Aveiro; e não raras vezes afastava-me na minha bicicleta alaranjada para passear e ver de perto as casas perfiladas. Sim, eu estava praticamente a viandar. Mas hey, vi Tuxedomoon ao vivo no Teatro Aveirense.

Uma altura, estando com uns colegas, contaram-me a anedota dos Dreads. Pelos vistos estava a ocorrer uma festa clandestina para uns dreads cabeludos apreciadores de heavy metal. Às tantas, entra um homem sem cabelo. «Hey! Tu não podes estar aqui. Isto é para dreads cabeludos apenas.»
- Calma - disse o homem sem cabelo, despertando a braguilha. - Agente infiltrado! 

É claro que o pessoal entre nós riu sobremaneira. 

- Porque é a banda dEUS
01
Nov21

Nada

Frederico

Estou a tentar processar o que ocorreu nestas duas últimas semanas. Estou em crer que nada. Têm sido dias de inércia. Como se não bastasse, estou a cair na hipocondria. Tão pouco fui dar caminhadas. No estado desassossegado em que estou, nem sair de casa...

Lembro-me que há um mês fui a uma consulta com a psicóloga; da viagem aos antípodas que eu fiz - e da sensação algo atribulada que senti depois de semanas imerso: como se a luz da cidade se abrisse em dois. É extraordinário porque o tempo às vezes não é mais estático. Como se por ventura fosse relativo para uns e outros. Muito singular. Não estou propriamente a divagar, até porque li sobre esse aspecto particular em A Montanha Mágica. 

Entretanto, e porque tinha assuntos a tratar, fui no autocarro para o lado mais longe da cidade. Foram provavelmente duas horas de viagem, entre resolver o que havia para resolver, retomar a viagem e voltar para casa. Foi quando me apercebi que estávamos em hora de regressos, mesmo ao final do dia. Eu sentia surpreso o fervilhar da cidade. Suscitava, enfim, uma espécie de gozo. Como num carrossel. Cheguei em casa e foi como se tivesse agigantado, tal a benesse das propriedades da luz. Para me afunilar em casa e no escuro.

Desde então nada tenho feito. Uma inércia abate-se sobre mim. Em quinze dias encerrado no meu "subterrâneo" nada de produtivo teve evento. Fui caminhar talvez duas ou três vezes. Fui ao Continente mais porque não havia café em casa.

01
Nov21

O senhor André Bretã

Frederico

O senhor André Bretã estava a modos que sem nada para fazer, atolado de ideias, vindo de um lado para o outro da casa. Como se não bastasse, estava insone. Lembrava-se de ver uma colega de trabalho desmaiada após se inocular com uma faca. Estavam nesse momento a conversar no gabinete, estando ela a manusear a faca com as pontas dos dedos. Pelos vistos, cravou a faca na mão quase inadvertidamente, pelo que o sangue jorrou de forma estonteante. Esta ideia assaltou-lhe o cérebro. Talvez pudesse inocular-se em sangue. A maleita toldava-lhe o juízo. É claro que não iria bater com a cabeça de encontro à parede. Epá, só cortanto os pulsos, dizia a voz do sua consciência. Neste somenos, riu. Lembrou-se de comprar um gelado. Acorreu imediatamente ao quiosque mais próximo, comprou um gelado e decidiu sair para a Perspectiva. Quando não é a sua surpresa, um cão surge diante de si com ares de malvado. Pelos vistos o senhor André Bretã estava em maus lençóis, pois o cão correu no seu encalço, açodado. Arrebatou-lhe o gelado, que André Bretã largou para o chão. E com ele, um jorro de sangue rubro à laia de expressionismo abstracto. "Sangue! - gritou, levando a mão a cabeleira farta que sujou com o fluxo sanguíneo - É o meu sangue! As pessoas estavam incrédulas. «Passou-se.» Era vê-lo ajoelhado diante do sangue, sorvendo essa preciosidade do chão. Eu fiz sangue!...

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