Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Hoje sim fumei de mais

ao meu pai

ao meu pai

Hoje sim fumei de mais

04
Nov21

O Homem Mudo

Frederico

O senhor Marcelo dos Campos estava a passear na rua do Souto. Tinha um assunto premente para resolver, pois que entrou na casa Machado e assim se dirigiu ao proprietário: «Boa tarde. Desejaria adquirir uma bengala de castão em forma de cão de água.»

- Claro, excelentíssimo senhor. Aqui tem - estendendo um exemplar no balcão de serventia. - Não é definitivamente do seu agrado?
- Definitivamente.
Após haver procedido ao pagamento, no qual havia desembolsado notas frescas acabadas de sair da máquina, o senhor Marcelo abandonou a loja e principiou o seu passeio. Porém, algo de muito inusitado aconteceu. O senhor Marcelo amparou a bengala num dejecto de porcaria. Isto só por si não é nada de muito invulgar - se a bengala despegasse no detrito. «Que significa esta circunstância? Que pau de três bicos?» Ali estava um senhor Marcelo dos Campos austero a tentar desenvencilhar a sua bengala de castão em forma de cão de água para nada. Pelos vistos um pobrezinho tentou introduzir no detrito uma espátula, mas foi logo enxutado por um cada vez mais possesso senhor Marcelo.
Todavia, o proprietário da casa Machado, ao ver os desenhos do autoproclamado Homem Mudo nas paredes diante da sua loja, acorreu ao senhor Marcelo. Não sabemos por que artes mágicas aquele fenómeno estava associado ao Homem Mudo. O certo é que o senhor Marcelo comprou uma lata de tinta e rolo de parede para nesse instante apagar as mensagens do Homem Mudo, figura proeminente das artes de rua da vetusta cidade de Braga. E como se não constassem mensagem subliminares na parede, o senhor Marcelo dos Campos desata num trote desenfreado para alcançar o estafermo. «Julga provavelmente que vou cair nas graças dele.» Ali apenas ficou a bengala grudada no chão...
 

Reporter Beta

 

26
Out21

Sopa

Frederico

Tanta vez decidi sair de casa pela janela do rés do chão da cozinha. Era impreterível manter a calma para descer pé ante pé. De referir que a queda de quatro metros até lá em baixo daria para partir desde logo os fracos bracinhos. Ao cabo desta faxina, que nessa idade nada tem de tenebroso, deixei-me cair na relva. Todavia, num desses dias de sol pela manhã, e neste somenos, ouvi uma senhora no sétimo andar do prédio em frente: «Oh, menino! Venha emborcar uma sopa! - Esta mulher, pensei para mim, já me convidou para emborcar sopa éne vezes. Vai pensar que vou ser ladrão - isto, porque consta que, quem desce pela janela, na idade adulta será ladrão. Bruxas, muito provavelmente. Decidi pois sair de fininho, estando a senhora na janela à espera que eu desse o sinal. Nada. Pelos vistos, houve quem me traísse; a mãe minha mãe já estava ao corrente. Quem senão a velha do sétimo andar? «Chamei pelo seu filho e ele, nada. Foi como se me ignorasse.»
Quando enfim cheguei em casa, a porta já estava destrancada. Nesse dia, teria perdido a chave. Ainda houvera tempo para ir ao recreio sob o sol tórrido, «Hey, outra vez a descer pela janela de cozinha? Que significa esta nova circunstância? Ouve, tu tiraste dinheiro da minha carteira?

22
Out21

Passeio

Frederico

Deixo-vos com uma passagem do meu diário que consta a uma Segunda-feira do dia 11 de Novembro de 2013:

Hoje a atmosfera de Braga é bastante boa. Havia uma azáfama salutar; e ainda descobri um alfarrabista numa loja nova e bem frequentada na Rua do Janes. Fui à suposta feira do livro do Largo do Paço, mas afinal tratava-se de uma pequena banca junto aos claustros; e como se a porta para a galeria estivesse aberta, aproveitei para tirar um café na máquina de expressos, e constatar que no Salão Nobre estava presente o Samuel Úria a fazer os preparativos para o concerto de logo à noite (ao qual atendi. Parafraseou; o que é sempre bom.) Braga tem uma atmosfera bastante diferente de outras cidades: não tem a luz ampla de Lisboa, ou profusa como no Porto, mas é estival e parece revestida de um incenso ténue a determinada hora vespertina. Gosto.

18
Out21

Velha-a-branca

Frederico

Uma altura estávamos a sair da Velha-a-branca (depois da Velha, era muito habitual passar no Insólito para uma danceteria, numa dessas noites em que o rapaz com t-shirt Franz Ferdinand pediu ao Disque Joquei para passar esta sua banda favorita, pelo que era vê-lo saltar de alegria para nosso contentamente), estávamos portanto a sair da velha - não sem antes comentar sobre a cadeira de barbeiro lá postada, que nos causava terror -, quando nos apercebemos que estava um carro fúnebre com a luz interior acesa. Viro-me eu: «Só falta mesmo o caixão» O problema é que ri da minha própria piada. O pessoal não coibiu. Às tantas, pelo caminho, ao mesmo tempo que olhava para o carro fúnebre atrás de mim, era acometido pelo riso irreprimível devido àquela minha piada. «Oi, que se passa?»
- Não era suposto rir da minha própria piada, home. Talvez ficasse mais sossegado se alguém ma tivesse contado. - «Ok, então esquece, amigo das horas tristes. Shall we? - dizia ele - articulando os braços para dançar. Esta é provavelmente a forma mais correcta para dançar»
- Muito bem - reparei. - Só te falta o fatinho e uma mesa para o teu mix. «Qual mesa? A banda Mesa?»
- Engraçadinho. Olha a minha cara de pré-conceito. 

Estava na hora do Insólito. Sha-la-la. Seria duas da manhã. Roteiro habitual. Ou isso ou o Deslize. Todavia, o Deslize estava pela hora da morte. Estávamos em 2008, o Deslize estava a entrar na derradeira fase parva. «Boa noite - dizia para mim o capanga à entrada da Discoteque, pelo que eu estirava o cartão de estudante dos bons velhos tempos (já caducado, diga-se), ao que ele respondia: «Nice. Estudante do Porto. Thank you for stopping by» 

É claro que dizia isto em Português.

Entretanto eu avistei o amaldiçoado carro fúnebre com a luz do interior acesa; era possível descortiná-lo lá em baixo. «Malta, é possível ver o carro fúnebre deste ponto» - disse. «Porquê, vais rir sobremaneira da tua própria piada?» Foi quando vimos o Franz Ferdinand na sua t-shirt pela terceira noite consecutiva. A perplexidade. E sempre os saltos de alegria contagiante. Mas enfim, nessa noite, no estaleiro, discorremos sobre quem tinha as mais lindas bochechas da cara.

Imagem

04
Out21

Perspectiva

Frederico

Quem atravessa a Rua Cruz de Pedra, lá é tudo feio: automóveis atravancados como metal pedregoso ao sol; casas de um raquitismo desmaiado, outras reformuladas sem generosidade. Mas quem desemboca no Campo das Hortas, o Sol abre para um jardim parcamente florido, e a Atmosfera, então saturada de construções arruinadas, dá lugar a um todo menos aquele lá atrás dolorido, numa catarse de ar fresco onde não muito longe eu vislumbro a Porta Nova.


Restaurantes pululam ali como nunca antes; nota-se o aroma das refeições vespertinas entre fogalhas e frenesi. Avanço para a rua dos Biscainhos. Uns passinhos em diante transpomos o Arco. Fervilha deste lado saúde e mercantilismo, mesmo diante da funerária onde o Pantocrator veste aguarela. E a Praça Velha, ela, soalheira e vespertina, onde emboca, como quem desce, a pitoresca Rua da Violinha. Prossigo D. Diogo de Sousa com o intuito de entrar n' A Brasileira. No frenesi do momento e dos novos restaurantes, a velha teima num menoscabo. São as velhas patrícias da Sé, onde tanta vez desenrolam mesinhas na Catedral ali à beira. Depois, muito distinto, o Largo D. João Peculiar. A varanda episcopal ao Norte da Catedral, onde o Senhor Bispo, maravilhado, vê o enxame que agora se junta numa multidão para ver a Burrinha passar. E sem mais delongas o formosíssimo Largo do Paço, onde avisto amigos do meu pai, e onde funciona a reitoria e a Biblioteca Municipal. Não sem esquecer o Salão Medieval: ali dentro escurinho, fresco e agradável de estar. Prossigo passo ante passo: Aqui as casas permeiam como um todo. Olha a Casa do Janes! Olha o Largo de São Martinho: recebe-me com música e chocalhos... E meia volta, a Rua do Castelo numa marvilhosa articulação e perpectivas.

O meu Patreon

Become a Patron!

O meu twitter

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub