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Hoje sim fumei de mais

ao meu pai

ao meu pai

Hoje sim fumei de mais

25
Out21

A Estrela da Manhã

Frederico

O caixão ostensivo, acompanhado por uma multidão, sai nesse momento pelas portas da igreja; quatro valentes homens ostentam esse caixão; e cai sobre ele os primeiros cardos. Um mar de gente brame um lenço; acorre para participar, solene, gloríola. Todos sem excepção comungam da atmosfera. Às tantas é ver mais e mais cardos cair sobre o meu caixão. Fui eu quem pediu cardos. A minha família, os meus amigos, os meus melhores amigos, num carpir desarmado. Mais cardos; tantos que a população arranca com eles em braços, e muitos outros acorrem para lançar com eles. É cardos a perder de vista como numa película. Crianças lançam por entre a multidão para ver de perto. E quantos mais cardos, mais falange. Até que tangem os sinos; e assomam outros veraneantes descendo pela estrada do sopé em trote. O meu caixão vai sobre a multidão, ostensivo, com homens triunfantes na investida para o cemitério. Os quatro homens valente que ostentam o meu caixão mais não são que quatro valentes amigos. No rosto, a galhardia. Dá gosto ver estes homens: o caixão nem pia. E vou para sob a terra, e da terra vou para o espaço sideral; do espaço sideral, finto e vou para o éter como nadador inveterado. Torno-me energia. Uma estrela, quiça. A estrela da manhã. 

25
Out21

As passas do Algarve

Frederico

Neste momento estou no escuro do meu quarto hermético. São 3h e meia da tarde. Estou que nem posso: pior que a noite. Estive todo este tempo a fumar diante do PC, debitando no Twitter. Não larguei o cigarro em toda a manhã. Agora estou em suplício. Momentos há que levo as mãos à cabeleira, tal é a sensação malsã. 

Entretanto, fui pagar umas contas de casa; pelo caminho, o sol de inverno, de um amarelo fosco, bate-me na psique como no interior de um forno. Todo o meu organismo entra em alvoroço. Vou pé ante pé, amargurado. E no entanto acordei bastante bem; rejuvenescido, depois de um Domingo aberrante.

Fui ao Continente logo pela manhã - pelo menos para espairecer e sair do estado hipocôndrico - e voltei no ónibus, diga-se. Nada teve evento. Não entrei em pânico; estava bem comigo próprio. Porém, o embotamento da alma voltou. Senti-me pior que estragado. É do tabaco à desfilada. Sentia-me bem disposto, comunicativo. Entabulei conversa com uma vizinha; disse uma graçola ao senhor do café. Enfim, fiz um entrechat. Mas não. Torna-me a crise do embotamento. 

Há uma semana saí do Hospital após aquela noite angustiante. Fiz a toma como prescrita. Todavia, senti os nervos desanranjados nos dias posteriores. Não consegui abstrair-me de todas essas sensações, como se os sintomas persistissem. Mas não, trata-se da minha velha ansiedade. Essa mesma velha ansiedade que se abate todos os dias. Esse porvir. O medo de morrer. Às tantas, a hipertensão de tanto fumar. O café. Daí a nada estou a tactear as paredes. Daí a nada tenho medo de cair desamparado. Se quero deixar de fumar - pelo menos cinco minutos -, daí a nada acho um cigarro entre os dedos.  

Daí a nada estou supliciado. Enterrado no lodo. Morro eu; morre a ansiedade e o martírio. Morrem os amigos. Morre o mundo em meu redor. E depois? Depois não há tabaco.

 

 

18
Out21

Suicídio

Frederico

Esta peripécia que agora vou narrar é bastante triste. Acontece que vi um senhor em achaque e moribundo ser transportado numa cadeira, vindo do elevador, devido a um ataque cardíaco. Lembro-me das luzes expectrais do átrio como algo a anunciar, nada de auspicioso. Quando não é a minha surpresa - uma vez que a ambulância estava no pátio exterior à espera deste senhor -, vislumbro dois bombeiros com uma cadeira em riste - e o senhor Toni sentado nessa mesma cadeira, não numa expressão de dor, mas sorumbático, para morrer. Como tantos outros do bairro, o senhor Toni era um folião, bebia desgregadamente. É o vício que os corrói por dentro até à exaustão. Se querem parar, impossível. É triste. Mas não tão triste e avassalador como um indivíduo que anos mais tarde alugou no prédio um apartamento. Este homem vivia dependente de uma cadeira de rodas. Como se não bastasse, os seus movimentos eram convulsos. Pouco falava, e quando se permitia transmitir uma mensagem, tão pouco o compreendiam. Acontece porém que a sua mulher, apesar de toda a assistência que lhe oferecia, mantinha uma relação com outro homem. Triste porque o homem dela estava ao corrente. E mais triste quando se tornou claro que o homem invejava a mulher, e tanto quanto sei, preferia estar morto. E foi assim que uma noite, pelo serão, ele tentou suicidar-se com um tiro de espingarda. Lembro-me do constante frenesi das pessoas nessa noite devido às ambulância no exterior. Contudo, o homem não estava morto; tão pouco pôde pôr termo à vida. Sim, não conseguiu suicidar-se. E o inferno continuou permanente. Vi este homem uma ou duas vezes depois do sucedido, e nunca depois. Esta história morreu subitamente. Não sei se devido ao suicídio consumado do homem ou noutras circunstâncias. Já nem quero referir se houve matéria para discutir devido a este caso. O homem estava como que entregue a si próprio. 

09
Out21

O Homicídio

Frederico

E quando eu sonhei que ocorreu um homicídio entre nós, uns adolescentes, num apartamento com chão em declive? Foi tão hediondo que a minha falecida avó acorreu de uma porta. Lembro-me que enviei por e-mail esta descrição para a minha psicóloga.

Enquanto isso, e no meio de uma aflição agoniada, tentamos despojar o corpo. Foi quando a minha avó surgiu em pânico - estando eu sobre o féretro, procurando encobrir. *Cuidado, meninos. Não façam nada que ponha a vossa vida em risco*

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